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Já é Carnaval em Salvador. Acorda, cidade!

Postado por Simone de Moraes

27/01/2016 20:44


Crédito: Reprodução

A Bahia pode ser acusada de tudo – menos de falta de respeito às suas tradições. E uma das tradições mais caras (no sentido literal) a esta província é a realização de tenebrosas transações entre o poder público e a iniciativa privada.

É fato que tal procedimento ocorre em todo o País, mas aqui é um tantinho pior, pois sempre prevalece o seguinte axioma: “A Bahia é o Brasil levado às últimas consequências”. A lista de desmandos neste torrão, que começou já na carta de Pero Vaz de Caminha, é igual ao ano de 1968: não acaba nunca.

Mas, derivo. E, para não ficar perdido igual à nau dos insensatos, vamos pra cima do fato igual a um carrapato.

Seguinte.

A folhinha na parede (sou do tempo em que existiam folhinhas na parede) me informa que estamos nos estertores de 2011, na ressaca natalina. No entanto, as ruas de Salvador desmentem o calendário e minhas retinas. Aqui, já é Carnaval, cidade. E, ao contrário do que possa imaginar os desavisados, esta afirmação não é para reverberar aquele mito da Bahiatursa de que nesta província lambuzada de dendê “é festa o ano todo”.

Nécaras.

Quando digo que já é Carnaval em Soterópolis é porque está aberta a temporada de ocupação imoral dos espaços públicos – a nossa mais recente e nefasta tradição. Como já é de conhecimento da Bahia e de uma banda de Sergipe, faz uns bons anos que a festa em Soterópolis virou sinônimo de elitização, discriminação e, principalmente, privataria das áreas que deveriam ser do povo.

Exemplo? Neste exato momento, faltando dois meses para o início do Carnaval, a empresa Premium Produções já ocupa, com seus tapumes, uma praça no bairro de Ondina, um dos locais mais, digamos assim, nobres da folia.

Porém, não se assuste pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa e que a ação está respaldada pela Prefeitura. Sim. Por conta de uma licitação, a referida empresa ganhou o direito de usar a praça por cinco anos, durante quatro meses no ano, e cobrar, pelos dias de Carnaval, R$4.890,00 (homem) e R$3.690,00 (mulher). Em contrapartida, eles deveriam reformar o espaço.

E a (mal) dita reforma foi feita. Porém, construíram uma praça sem vida, sem uma árvore sequer, pois o objetivo era apenas adequar o importante espaço para a instalação do famoso Camarote Salvador.

Mas, a marcha da insensatez não para aí. Na tarde da última quarta-feira, dia 21, quando faltavam poucas horas para o início oficial do Verão, onde tudo é permitido na Bahia, um policial simplesmente impediu o acesso ao local, que, em tese, é um espaço público.

– Não, não pode entrar.

– Mas, não vou entrar. Quero apenas olhar.

– Olhar também não pode.

É bem provável que o meganha, que, por vestir uma farda, deve se achar um preposto da presidência da República, esteja apenas antecipando a aplicação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU). Afinal, o referido projeto, que está tramitando na Câmara de Salvador, determina exatamente uma vedação ao olhar, ao permitir a construção indiscriminada de espigões na orla de Salvador.

Enquanto isso, resta esperar que os tilintares dos sinos natalinos acordem a cidade, pois já é Carnaval.

Ah, sim. Antes que os trios elétricos comecem o barulho ensurdecedor, vale destacar que o Ministério Público já entrou com ações contra a tramitação do PDDU. Esperamos também que o MP olhe para este espaço em Ondina para que a praça volte a ser do povo e o céu não seja dos urubus que comandam os camarotes.

Amém.

* Franciel Cruz é jornalista e mora em Salvador (BA). Publicado originalmente no site de notícias Bahia Todo Dia